Cadê Angela?

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“Cadê a Angela?” Essa é a pergunta que uma mulher fará no bar do Coltivi, em Botafogo, na Zona Sul do Rio, se estiver em situação de risco dentro do estabelecimento. A frase, como informa um recado dentro do banheiro feminino, é a senha para indicar que algo não vai bem, numa estratégia que vem sendo adotada em bares, restaurantes e casa s noturnas — cada lugar com sua versão — para facilitar denúncias de assédio, violência ou importunação. A comunicação por código ganhou popularidade após a promulgação de uma lei estadual, em 2019, que obriga estabelecimentos a prestarem auxílio para mulheres que se sintam em situação de risco.

Drinques fictícios

No Coltivi, o recado atrás da porta do banheiro diz: “Está em um encontro que está ficando estranho? Sente que não está em uma situação segura? Vá pelo bar e pergunte ‘Cadê a Angela’?”. A personagem fictícia foi importada de uma campanha contra assédio feita na Inglaterra, em 2016, que chegou ao conhecimento de Piero Zolin, de 41 anos.

Com essa era nova de encontros marcados por aplicativos, os riscos aumentaram — afirma o dono e fundador do Coltivi.

Yuri Evangelista, chefe do bar, lembra da única que vez em que uma mulher procurou pela “Angela”. Nervosa, a cliente utilizou o código e foi prontamente acolhida por Yuri, que a levou até o escritório do estabelecimento.

Ela não quis entrar em detalhes, só disse estar nervosa e que só sairia quando o homem que a estava acompanhando deixasse o local. Eles tinham se conhecido em um aplicativo de relacionamento, e algo saiu do controle — conta Yuri.

A estudante de psicologia Maria Eduarda Lopes Cavaleiro, de 19 anos, já esteve em um encontro onde se sentiu “desconfortável” e “invadida”. E lamenta não ter um recurso como esse na época.

Meu limite foi desrespeitado por esse rapaz, e fiquei sem reação. Acredito que, se essa ideia já estivesse em prática, teria sido bem útil, pois, após a primeira situação desconfortável, eu conseguiria ir embora. Na época, fiquei até o fim — lembra Maria.

No Rio de Janeiro, esse mecanismo de defesa inspirou a lei estadual 8.378, da deputada Enfermeira Rejane (PCdoB), que estabelece que bares, casas noturnas e restaurantes são obrigados a adotar medidas para auxiliar mulheres em situação de risco nas dependências desses estabelecimentos.

A lei diz que a informação sobre o socorro disponível deve ser exposta em “cartazes fixados nos banheiros femininos ou em qualquer ambiente do local”. Também é obrigação do estabelecimento treinar e capacitar os seus funcionários para a aplicação das medidas previstas.

Sérgio Pires e Gustavo Paiva, empresários à frente do restaurante Bora!, em Campo Grande, na Zona Oeste, não conheciam a lei quando adotaram a tática do recado personalizado no banheiro feminino. Por lá, um cartaz orienta a cliente a ir até o bar e pedir o drinque “Bora Fora”.

Se chegou ao nível de pedir ajuda, é porque a situação está muito fora da normalidade, é de perigo. Então, precisamos estar preparados para uma possível ocorrência — conta Pires.

 

No Zazá Bistrô, em Ipanema, a preocupação com a proteção das mulheres está presente desde o início. As donas, Zaza Piereck, de 54 anos, e Preta Moyses, de 46, mesmo antes da implementação da lei, já tinham um “drinque” indicado no banheiro como código para situações de risco.

Como nunca tivemos nenhum caso, resolvi trocar o drinque por um recado mais claro. Fiquei com medo de não procurarem ajuda por algum mal-entendido — explica Zazá, que adotou um cartaz padrão do Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro. Para a delegada de Polícia Monica Silva Areal, a iniciativa pode salvar vidas.

É muito comum ouvir o relato de mulheres que ficaram em situações desconfortáveis em encontros e não souberam como sair. Esse recado no banheiro pode salvar uma vida — garante.

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